segunda-feira, 4 de maio de 2009
And so came Fall
O vento estava frio e as mangas curtas começavam a ficar nos armários. Já era outono, as folhas secas se moviam com o vento, serpenteando no chão entre as pernas dos transeuntes. Naquele canto, a praça, mesmo que diminuta, parecia englobar o mundo todo. O monumento no centro que antes fora ridicularizado, parecia mandar mensagens indiretas, como se corroborando aquilo que queria ouvir mas ninguém ousava falar. As respostas vem quando as perguntas certas são feitas.
A verdade é que a segunda-feira parecia quarta e o bla-bla-bla ritmado da sala de aula era uma mistura de suco de maracujá com calmante. Por mais que o assunto fosse interessante, não havia como manter-se focado e aquele passeio na noite quase-fria pareceu ser a melhor opção. Meia hora depois, mesmo não sendo novos ares, o sono tinha dado uma trégua e resolveu que estava tarde demais pra ficar pensando.
Olhou de soslaio duas meninas que estava no canto da praça, esticou as pernas e voltou pra sala.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Solve et Coagula
Era, sem dúvida, um tipo diferente. Mas, assim como havia deixado de acreditar na chance de encontrar ao acaso alguém interessante, também deixou de acreditar que estava sozinho no mundo. Talvez um pouco mais tarde do que havia admitido, mas mesmo assim. Não era o único que lia livros na fila do cinema (mesmo que fosse naquele cinema), não era o mais tenebroso dos seres humanos, não era o mais misterioso, não era o mais desprezível nem o mais amado. Era, como a maioria dos seres humanos, alguém comum. Um amálgama, há quem diga mal-feito, de diversos fatores que formavam aquele indivíduo, mesmo que não desprezível, ainda sim desprezado, não visto e deixado de lado. Nada que o incomodasse, afinal, ele estava fazendo exatamente o mesmo.
Viu-se em uma posição familiar. Talvez porque também guardasse certo desprezo por si mesmo. Desde jovem, sempre viveu naquela velha história de estar entre os melhores alunos, melhores profissionais, melhores empregos, melhores salários, melhores notas. Viu-se, mais do que nunca, frustrado e ridículo, um misto de vergonha e covardia que comia suas entranhas. Alguém que se contentava com a média, com apenas passar de cá pra lá.
Mas reconhecia seu potencial, uma capacidade além da média de fazer algo, mesmo sem identificar qual potencial e quais "algos". Reconheceu também que esse potencial fora explorado anteriormente, porém sem preparo para que pudesse ser desenvolvido e tirado o máximo dele. Como os atletas que não se preparam devidamente pois devem jogar para que a torcida se anime e eventualmente acabam contundidos, obrigados a se contentarem com uma carreira medíocre vivendo do passado ou, até mesmo, obrigados a se aposentarem precocemente.
Vez ou outra tinha estes momentos de reflexões, alguns raros com epifanias, mas este fora estranho, alheio a todos os outros. Viu-se não tão velho a ponto de desistir, mas não tão novo a ponto de abrigar-se na segurança do amanhã. Viu-se não tão medíocre a ponto de embrenhar-se na mata do ordinário, mas não tão extraordinário a ponto de elevar-se acima de todos. Viu-se não tão rápido, como quem busca a todo custo atingir um alvo, mas não tão lento a ponto de confundir a letargia com paralisia. Talvez, pela primeira vez em anos, viu-se. Uma visão não poluída pelas bajulações, enaltecimentos, críticas infundadas, descrenças e auto-destruição. Viu-se não através da janela ou no reflexo de um espelho, viu diretamente - acreditou que esse processo lento de destuição de barreiras tenha valido a pena. Mesmo não sendo aquele menino que era encarado por olhos admirados, ainda sentia em si a centelha abrasando o peito aparentemente oco.
Viu-se novamente acreditando em ser professor, escritor, conselheiro e representante. Viu a fé que crescia em si. Fé em si mesmo. E jurou que ia atrás, ia se preparar, treinar para poder usar esse talento, esse dom. Por ora, permaneceria ainda escondido, afinal, não gostava de mostrar rascunhos para o mundo. O livro em suas mãos reforçava sua idéia de apenas publicar o que estivesse pronto, respeitando todas as etapas. Talvez sua obra-prima não fosse um livro, um tratado. De repente, seria a própria vida.
Finalmente chegou ao guichê e decidiu adiar os planos até que o filme acabasse.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
O pouco que me resta
Romântico veterano, invertebrado
Mesmo assim, um arquétipo bem articulado
Sem artimanha, nem armadilha
Sem prumo, nem rumo
Sigo a trilha
Romântico treinado, vacinado
Contra raiva, contra-ataque
Contraído, ora distraído
Sem eira, nem beira
Beira-mar, profundo
Mas no fundo, não deixei
Sigo a acreditar
No quarto e no bolo
As velhinhas velam e se apagam
Caquéticas e esqueléticas
Antevendo o inefável destino
A vela e o dente
Vencidos pelos anos
A chama perdida e o doente
O tempo segue fugaz
Sigo atrás, sem mais
nem menos
segunda-feira, 30 de março de 2009
The same amount of hours in a day
I don't like birthdays. I mean, what is the pointing of celebrating the day you were born? It might seem a forlorn observation but believe me, it is not. I think we should celebrate (if supposed to celebrate at all) the days in which we had great achievements - and I had no contribution whatsoever in being born. But, let us leave the even-more-useless discussion aside.
It all started on friday, the d-day per se. In the office, that bunch of people that could not careless about you see in the intranet that it is your birthday and decide to call to congratulate you. There are a few, obviously, that somehow know you and that does not only wish you a happy birthday just to carry out the social standard procedure. Anyways, during the day, I just keep the office-face on and smirk at every display of fake-caring. Late, that night, I went out with some friends from previous working places, and it was really nice to see these guys. MC dropped by a little later to become the center of attention, do the usual pranks, trying to act cool-I-don't-care-ishly and then talking a little about daily stuff and, also as usual, some gigs. The good part of it all is that at no moment I was the "main event" and it surely is much better this way.
Yesterday, although some faces were missing, it was altogether great. Barbeque, pool, a little soccer, cards, chit-chat, laughs and also making plans for the future. There were also serious moments and the discussions went on and on. Choices are made and realizing the lack of importance that is given to crucial issues is very disappointing. So many different ways of seeing things and even so I am able to grasp it all, although disagreeing most of the times. I also realize when I cross the line here and there, and I just hope they understand also. It's not so easy to keep up the pose when you're confronted, so we just linger back to a laid back position and don't show up that much anymore. But the change is so obvious that it is kind of ridiculous. But, then again, why should I care?
And so it ends the alledged celebration.
Happy Birthday.
quinta-feira, 26 de março de 2009
How to build
a parar de falar quando ninguém irá ouvir.
a parar de explicar quando ninguém irá entender
a parar de querer quando não se pode ter
A vida te dá recursos e são eles que você pode usar para conquistar alguém, para fazer alguém te amar.
Não se trata de alguém ser bom demais ou bom de menos para o outro. Mas se a pessoa tem o recurso demais ou de menos.
Não se pode comprar algo que não cabe no bolso.
Não se pode carregar algo que não cabe nas mãos.
Não se pode ser visto quando não há o que se ver.
Não importa pra onde eu olho, nem para onde tento ir
Estou sempre em falta.
segunda-feira, 23 de março de 2009
'cause I can't look straight to the sun
Gira só, girassol
Vento bate e dobra a folha
Caule entorta e se encurva
- Não sei, quebrou?
- Não! Se quebrou?
- Não se quebrou.
Gira-gira girassol
Gira só, girassol
sexta-feira, 13 de março de 2009
(Re)construir
Lembro de quando acreditava que era apenas uma questão de tempo até eu ir lá fora e mudar tudo, fazer o mundo girar de um jeito melhor. As mãos eram firmes, preparadas e tinham certeza absoluta do que fazer. Mas as coisas mudam e todo a força que tínhamos acaba sendo usada para não deixar o seu mundo desmoronar. Quiçá ser capaz de fazer algo além.O bastante para não deixar tudo cair, mas não para erguer algo novo.
Aos poucos aprendi que não se trata de segurar o mundo para ele não cair. Mas sim de fazer os pedaços que vem giraram, como malabares e deixar que caia aquilo que não deve mais fazer parte do mundo. Admito que em algumas vezes eu olhava para tudo aquilo e não reconhecia mais o que era, nem quem eu sou. Mas alguns muros caem porque separam, porque escondem.
Em alguns dias, eu só quero esquecer que há um mundo lá fora. Nos outros, eu construo com uma mão e luto com a outra. Reconstruo meu mundo, preferindo pontes a muros.