Meu filho me olhou e fez uma cara preocupada. Deve ter notado no meu semblante o cansaço dos dias e o meio sorriso que tentava forçar. Não pude suprimir uma ponta de orgulho ao ver que nisso ele puxou pro pai - nada fugia do escrutínio daqueles olhos. Como sempre prezei pela sinceridade, pus-me a falar.
Acredite em mim quando eu digo, meu filho, que só se dá valor ao silêncio no momento em que se fala demais. Melhor é enfiar o pé na boca e engolir sapos do que ficar recolhendo cacos de um relacionamento que nunca irá se recompor. O fardo da indignação é muito mais leve que o da culpa e o peso de ser injustiçado é ínfimo frente ao denso remorso. Eu falei e falo demais e me custou demais, mais do que eu poderia ter perdido, tive que aprender a segurar as palavras para os momentos propícios. Represar a verborragia que me é natural teve o mesmo efeito que as represas nos rios - um resultado mais proveitoso a um terrível custo que só é visto por quem fica do lado em que as águas, ou palavras no meu caso, se acumulam.
Porque você ainda é jovem, seus erros são tidos como aprendizado, mas você ainda vai chegar na idade em que, independente de suas qualidades e dos seus olhos verdes, as pessoas só fixarão o olhar em suas falhas e defeitos. Na idade em que se é muito grande para brincar com as crianças, mas não o bastante para se juntar aos adultos. A voz não é alta o bastante para alcançar os sábios e não é baixa o suficiente para os ouvidos mais simples. As palavras escritas não são rebuscadas o bastante para os letrados e possuem sílabas demais para os que só lêem o que lhes é imposto. Mas não se deixe prender, enquanto estiver chegando nesta fase, nas correntes da falsa modéstia e da máscara de superioridade que te faz se tornar o mais nobre dos medíocres.
Eu peço a Deus que não seja tarde demais quando você perceber que a vida é a busca por um equilíbrio quase utópico entre saber a hora de agir e a hora de esperar, entre tomar decisões e ficar em cima do muro, entre risos e choros, entre amigos e corações partidos. Que quando você estiver crescendo, vai querer ser igual e se encaixar em um grupo. Mas que depois, a sua maior vontade será a de ser, ou ao menos se sentir, especial, diferente, único. Somos todos iguais perante os homens, a lei e Deus, apesar de sermos todos singulares e, quase sempre, solitários.
Em nenhum momento, os olhos deles desgrudaram de mim enquanto falava. Ele estava com quase 8 meses e, quando me sentei na cama ao lado do berço e estendi os braços para pegá-lo no colo, ele me deu um sorriso com dois meio-dentes que começavam a despontar e não demorou a pegar no sono.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Teenager love
Era mais um desses jovens quasi-adolescentes que andava com a franja na cara e os olhos no chão. Engraçava-se com as menininhas, tinha fama de pegador e sempre tinha uma dessazinhas à tira-colo. Faltava-lhe maturidade para entender os sentimentos e faltava-lhe idade para saber o que é o sofrimento. Optava por não saber a não ser amado, optava por se esconder por trás dos piercings e um sorriso pseudo-hedonista.
Um dia, como outro qualquer, viu-se perante uma mulher. Ela era diferente das meninas que costumavam estar por perto. Apesar de ter quase dois palmos a mais de altura, ela o olhava de cima pra baixo, como se tivesse o colocando, finalmente, em seu devido lugar. E assim começou a tal da história do amor adolescente que se repetia pelas gerações. Cortou o cabelo e passou gel, tirou os esmaltes das unhas, aparou a barba, trocou as calças jeans rasgadas por calças sociais com pregas e as camisetas surradas por camisas engomadas.
Empenhava seu tempo entre fazê-la rir e conhecê-la mais. Seguia-a na empresa, pelas ruas e no twitter. Comentava todos os posts do facebook, mas sempre cuidadoso para não parecer desesperado - afinal, ele sempre esteve no controle da situação e sabia como lidar. Quando o via, ela sempre falava com risos sobre seus comentários e bom humor. Ela retribuia os elogios, demorava aquele segundo a mais quando o cumprimentava com o beijo no rosto e sempre que passava por ele nos corredores, dava um jeito de tocá-lo, mesmo que de leve. Ela tinha sua completa atenção e devoção e ele, em contrapartida, tinha a convicção de seus avanços e a proximidade de sua conquista.
Combinou com os amigos de saírem no sábado para uma cerveja e papo-furado. Ele apareceu decidido a agir, ela apareceu acompanhada. Decidiu então tirá-la de seus planos, erradicá-la dos sonhos e fantasias e até privá-la de sua atenção nas ocasiões fortuitas que se encontravam.
Para provar que o amor quase nunca é feito para os adultos e definitivamente, nunca para os adolescentes - ela nem percebeu a diferença.
Um dia, como outro qualquer, viu-se perante uma mulher. Ela era diferente das meninas que costumavam estar por perto. Apesar de ter quase dois palmos a mais de altura, ela o olhava de cima pra baixo, como se tivesse o colocando, finalmente, em seu devido lugar. E assim começou a tal da história do amor adolescente que se repetia pelas gerações. Cortou o cabelo e passou gel, tirou os esmaltes das unhas, aparou a barba, trocou as calças jeans rasgadas por calças sociais com pregas e as camisetas surradas por camisas engomadas.
Empenhava seu tempo entre fazê-la rir e conhecê-la mais. Seguia-a na empresa, pelas ruas e no twitter. Comentava todos os posts do facebook, mas sempre cuidadoso para não parecer desesperado - afinal, ele sempre esteve no controle da situação e sabia como lidar. Quando o via, ela sempre falava com risos sobre seus comentários e bom humor. Ela retribuia os elogios, demorava aquele segundo a mais quando o cumprimentava com o beijo no rosto e sempre que passava por ele nos corredores, dava um jeito de tocá-lo, mesmo que de leve. Ela tinha sua completa atenção e devoção e ele, em contrapartida, tinha a convicção de seus avanços e a proximidade de sua conquista.
Combinou com os amigos de saírem no sábado para uma cerveja e papo-furado. Ele apareceu decidido a agir, ela apareceu acompanhada. Decidiu então tirá-la de seus planos, erradicá-la dos sonhos e fantasias e até privá-la de sua atenção nas ocasiões fortuitas que se encontravam.
Para provar que o amor quase nunca é feito para os adultos e definitivamente, nunca para os adolescentes - ela nem percebeu a diferença.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Theory of oblivion
Maxwell Maltz disse que em 21 dias você se livra de qualquer vício.
Decidi me livrar de você, mas 21 dias era pouco então juntei minhas malas e fui visitar vários lugares que nunca estivemos juntos. 21 x 21 dias deveria ser o bastante pra te esquecer.
Do alto do Kilimanjaro às profundezas da Fossa das Marianas, das raves aos templos budistas, das reuniões familiares ao exílio. Fui ao zênite e voltei do nadir, abracei e me desgarrei do mundo, fui ao topo, ao cume, às favas e pro brejo. Voltei a mim mesmo, à casa que se re-tornaria lar.
A mão no meu ombro, o toque conhecido, a voz carregada de saudade e nostalgia. O sorriso era o mesmo e as intenções não mudaram. A teoria só não disse o tempo que levava pra eu me viciar de novo.
Quanto tempo dura um "oi"?
Decidi me livrar de você, mas 21 dias era pouco então juntei minhas malas e fui visitar vários lugares que nunca estivemos juntos. 21 x 21 dias deveria ser o bastante pra te esquecer.
Do alto do Kilimanjaro às profundezas da Fossa das Marianas, das raves aos templos budistas, das reuniões familiares ao exílio. Fui ao zênite e voltei do nadir, abracei e me desgarrei do mundo, fui ao topo, ao cume, às favas e pro brejo. Voltei a mim mesmo, à casa que se re-tornaria lar.
A mão no meu ombro, o toque conhecido, a voz carregada de saudade e nostalgia. O sorriso era o mesmo e as intenções não mudaram. A teoria só não disse o tempo que levava pra eu me viciar de novo.
Quanto tempo dura um "oi"?
domingo, 6 de março de 2011
Moleque descalço
Aflito, com afinco às regras
Lamúrias, augurios e percalços
Neste caminho, o vidro quebra
E anda o moleque descalço
Aliterando sem vacilo
Segue sempre sozinho, insensato
Feições enrijecidas, sem riso ou choro
Alma e coração calejados
Buscando o prumo, segue o rumo
Imberbe, todavia maduro
Pé imundo e nas costas, o mundo
Sincero, simplório e sisudo
Esvaído, perdido e amargo
Não há mais valor na chegada ao fim
Se a cada passo no caminho errado
É um pedaço perdido de mim
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Balcão da vida (conto)
- Moça, onde que eu vou pra realizar este sonho?
- Já te deram um número de Concretização para confirmar pela internet?
- Não, mas eu decidi vir até aqui pra resolver isso.
- Olha, o máximo que eu posso fazer é te encaminhar para a Decepção. Lá eles te registram no sistema e te encaminham pra Centro de Aceitação de Mediocridade.
- Mas o que eu faço com esse sonho aqui?
- Olha moço, com as condições que você se apresentou, acho melhor deixar ele por aqui - ali na frente, do lado do elevador, tem um depósito de sonhos passados.
- Bom, obrigado pela ajuda, mas vou levar esse de volta pra casa. Acho que ainda dá tempo de tentar fazer algo por minha conta.
- Vai lá. Não são muitos os que voltam aqui, mas, se você chegou até esse ponto, acho que já tá na hora de sair de cima do muro e ir adiante. Boa sorte.
- Já te deram um número de Concretização para confirmar pela internet?
- Não, mas eu decidi vir até aqui pra resolver isso.
- Olha, o máximo que eu posso fazer é te encaminhar para a Decepção. Lá eles te registram no sistema e te encaminham pra Centro de Aceitação de Mediocridade.
- Mas o que eu faço com esse sonho aqui?
- Olha moço, com as condições que você se apresentou, acho melhor deixar ele por aqui - ali na frente, do lado do elevador, tem um depósito de sonhos passados.
- Bom, obrigado pela ajuda, mas vou levar esse de volta pra casa. Acho que ainda dá tempo de tentar fazer algo por minha conta.
- Vai lá. Não são muitos os que voltam aqui, mas, se você chegou até esse ponto, acho que já tá na hora de sair de cima do muro e ir adiante. Boa sorte.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
O sonho que cansou de ser
Sonho de infância, sonha a criança
Com raízes desde quando o primeiro dente caiu
Sonho de leite, sonho permanente
Até que a vida desmente o anseio pueril
Não era um sonho qualquer
De terminar a escola, de jogar bola
De crescer, de ter um superpoder
O que sonha se desprendeu e fugiu
Da saia da mãe, da sombra do pai
Tornou-se gente, coração doente
Cansado da procrastinação, desistiu.
Piagetiando, dobrou a esquina e deixou de ser visto.
Deixou de ser.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Neverending cycle
Originalmente postado em 12/03/2007
Viver a manhã esperando a tarde
Viver até tarde esperando amanhã
Notívago, gritando adeus
Insône, pedindo a Deus
----------------------------------
E quem quer essa vida de viver Janeiro querendo Julho, não vendo a hora de dar Setembro pra que fique mais perto de Dezembro?
E quem quer essa vida de acordar só pra pensar na hora que vai poder voltar pra cama? Que a maior alegria do dia é quando ele acaba?
E quem quer essa... vida?
----------------------------------
Não tem mês passado nem mês que vem no meu calendário.
Não acredito em auto-ajuda, quando se precisa de outra pessoa ou livro.
Não acredito em amor à primeira vista. Nem à segunda.
Não fico com a primeira impressão.
Não preciso ver pra crer.
Sem prever o futuro
Sempre ver o futuro
Viver a manhã esperando a tarde
Viver até tarde esperando amanhã
Notívago, gritando adeus
Insône, pedindo a Deus
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E quem quer essa vida de viver Janeiro querendo Julho, não vendo a hora de dar Setembro pra que fique mais perto de Dezembro?
E quem quer essa vida de acordar só pra pensar na hora que vai poder voltar pra cama? Que a maior alegria do dia é quando ele acaba?
E quem quer essa... vida?
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Não tem mês passado nem mês que vem no meu calendário.
Não acredito em auto-ajuda, quando se precisa de outra pessoa ou livro.
Não acredito em amor à primeira vista. Nem à segunda.
Não fico com a primeira impressão.
Não preciso ver pra crer.
Sem prever o futuro
Sempre ver o futuro
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